terça-feira, 21 de junho de 2011

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Soneto de separação


De repente do riso fez o pranto
Silencio e branco como a bruma 
E das bocas fez-se a espuma 
E das maos espalmadas fez-se o espanto 

De repente da calma fez o vento 
Que dos olhos desfez a ultima chama 
E da paixao fez-se o ressentimento 
E do momento imovel, fez-se o drama 

De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente 

Fez-se de amigo proximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente 


Vinicius de Moraes